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A Verdade Não Existe

 

 

 

     “Mas como assim não existe?”, você deve estar se perguntando. Calma, eu explico. Ou melhor, Paul Veyne explica. Segundo ele, a verdade não existe, pois ela não é absoluta, e sim, constituída historicamente através dos séculos. “Os homens não encontram a verdade, fazem-na, como fazem sua história”. Alias, Veyne procura não utilizar a palavra verdade no singular, pois diz que ela “é uma palavra homônima, e não deveria ser empregada senão no plural”. O que existe então são “verdades”, ou segundo um conceito que Veyne utiliza, “programas de verdade”.

 

    Toda essa teoria é utilizada por Paul Veyne para analisar as “modalidades de crenças” entre os gregos antigos em seu livro Acreditavam os Gregos em seus Mitos?. Uma pessoa com o mínimo de conhecimento histórico, certamente responderia a pergunta-título do livro com um eloqüente “sim”. Mas, não é tão simples assim. O que podemos dizer é que eles acreditavam e ao mesmo tempo não acreditavam em seus mitos. “Mas… Hein?”

 

    “(…) um grego colocava os deuses no céu, mas teria ficado atônito se os percebesse no céu”. Essa fala de Veyne ilustra muito bem essa aparente contradição. Mas como pode alguém acreditar e ao mesmo tempo não acreditar em uma coisa? Uma pessoa que não acredita em fantasmas pode ter medo deles? Sim, isso é possível pois só existe programas de verdade heterogêneos, sendo que todas as verdades são analógicas, e apesar de estarmos sempre mudando entre elas, continuamos sempre no verdadeiro.

 

     Vamos tentar entender isso. Ao assistir um filme ou ler um romance, você tem consciência de que se trata de uma ficção. Isso, no entanto, não o impede de acreditar no conteúdo da história, ao menos enquanto está assistindo a um filme ou lendo um livro. Você sabe, por exemplo, que o som não se propaga no espaço, mas aceita isso perfeitamente quando está assistindo a um filme como Star Wars. Acontece que nesse momento você mudou, inconscientemente, de um programa de verdade anterior, em que o som não se propaga no espaço, para o programa de verdade do filme, em que a propagação do som no espaço é plenamente possível. É por isso também que você aceita que num filme típico do Jackie Chan ou do Jet Li, que eles façam diversas peripécias acrobáticas sobre-humanas. Ou não. Você certamente já foi no cinema e viu alguém ficar o tempo todo questionando o filme: “Puta, que mentira! Como é que aquele cara conseguiu fazer aquilo?”. Acontece que essa pessoa continuou mantendo o seu programa de verdade anterior ao invés de mudar para o programa de verdade do filme, então as verdades da história se tornaram falsas pra ele.

 

     Quando pensamos nos mais diferentes campos do conhecimento, o processo de modulação entre programas de verdades é muito semelhantes aos exemplos acima. “Existe uma pluralidade de programas de verdade através dos séculos, que comportam diferentes distribuições do saber, e são estes programas que explicam os graus subjetivos de intensidade das crenças, a má-fé, as contradições num mesmo indivíduo”, diz Paul Veyne. Essa distribuição do saber está intimamente relacionada com a modalidade de crença de uma sociedade, ou de um grupo de pessoas.

 

     Existem duas modalidades básicas de crenças. A primeira diz respeito à crença na palavra. Ou seja, é o conhecimento pela informação, pois essa está imbuída ela própria de autoridade do conteúdo que carrega. Essa é a modalidade de crença utilizada pelas religiões. A segunda, que é a modalidade de crença mais difundida, é a crença no outro, ou baseada na fé do outro. “Acredito na existência de Tóquio, onde ainda não fui, porque não vejo qual seria o interesse dos geógrafos e das agências em me enganar”, afirma Pual Veyne. Percebam que a maior parte do nosso conhecimento (arriscaria dizer, uns 99%) não foi adquirida empiricamente, mas sim através do que lemos num livro, revista ou jornal; assistimos na TV; ouvimos no rádio ou de uma outra pessoa. Eu, como Veyne, também não duvido da existência do Japão. Também não duvido que os norte-americanos realmente foram a Lua e fincaram sua bandeira lá, apesar de nunca ter ido conferir isso pessoalmente. Simplesmente porque não vejo qual seria a razão de mentirem sobre esse fato (mas ao contrário de mim, há muitos que vêem sim uma razão).

 

     As modalidades de crenças nos remetem as modalidades de posse da verdade. Não se duvida do que os outros dizem ou acreditam se eles são respeitáveis. As relações entre as verdades são relações de força. Nada impede, por exemplo, que um médico saiba mais de História do que um historiador, mas esse último terá muito mais credibilidade do que o médico quando estiver falando sobre esse assunto. Assim como daremos mais credibilidade ao médico do que ao historiador se eles falarem sobre medicina. Criamos assim uma rede de confiança e autoridade com relação ao conhecimento. Percebam então como nosso conhecimento, em essência, não passa de um castelo de areia que pode desmoronar facilmente a qualquer momento se essa rede for quebrada. A consciência disso é algo aterrorizador e poderia enlouquecer o mais são dos homens.

 

    No entanto, não quero dizer com isso que o conhecimento adquirido através da fé no outro seja menos confiável do que o conhecimento empírico. Apesar do que costumam apregoar algumas pessoas, principalmente entre jornalistas e advogados, através de máximas como “os fatos falam por si só” ou “os fatos não mentem”, devemos lembrar que não há a verdade absoluta das coisas, e a verdade não nos é imanente. Novamente, somos nós que fabricamos nossas verdades e não é “a realidade” o que nos faz acreditar nelas. Fatos são interpretados segundo o programa de verdade em vigor. Ainda que esses fatos possuam uma materialidade em algum lugar do espaço e do tempo, eles ainda estão sujeitos a uma interpretação. A materialidade de uma coisa não nos traz automaticamente o conhecimento sobre essa coisa. É como a velha anedota da árvore que cai no meio de uma floresta, se ninguém nunca a viu cair, é como se ela não tivesse caído. Ou nem ao menos existido.

 

    Você neste exato momento provavelmente deve estar começando a por em dúvida a sua própria existência e a existência do mundo ao seu redor. Calma, também não estou querendo dizer que vivemos numa Matrix. Não sejamos tão platônicos. Mas é preciso ter consciência de que “o homem é um animal amarrado as teias de significados que ele mesmo teceu”, como diria Max Weber. E o homem constrói o seu mundo com essas teias.

 

    A consciência de que talvez a única verdade seja que a verdade varia, é uma quebra de paradigma muito grande para a maioria das pessoas. Por isso temos uma tendência a sempre achar que o nossos programas de verdade sejam mais verdadeiros do que os dos outros. Isso quando não vemos a nossa como sendo a única verdade. Como diz Paul Veyne; “Quando não se vê o que não se vê, não se vê nem mesmo que não se vê”. Algumas pessoas estão tão acomodadas ou satisfeitas com as suas verdades que não percebem nada além disso. Desconhecem a forma irregular dos limites do mundo que construiu e então acreditam habitar dentro das fronteiras naturais. Elas enxergam apenas na perspectiva de um ponto, e não possuem consciência de que esse ponto é apenas um entre infinitos que formam uma reta, e que essa reta é apenas mais uma entre infinitas que constituem um plano, e que esse plano é apenas um lado de um polígono de infinitos lados. Se continuarmos nessa linha de raciocínio, logo nos veremos aprisionados na caverna de Platão, olhando para sombras projetadas na parede. É, apesar de eu ter dito para não sermos tão platônicos, é difícil escapar da alegoria da caverna.

 

    Acreditamos que aderimos ao verdadeiro para justificar nossas opções, sejam elas políticas, religiosas, morais, sexuais, etc. Se desistimos delas, então declaramos que são falsas, pois se fossem verdadeiras, não teríamos desistido. Essa superstição ajuda as pessoas a viverem, pois decididamente seria um choque muito grande se elas se dessem conta de que suas escolhas (e suas verdades) são tão arbitrárias quanto, por exemplo, os seus gostos pessoais. Não sei explicar porque gosto de rock e não gosto de pagode. Poderia, no entanto, justificar meu gosto utilizando uma série de critérios para dizer que o rock é melhor que o pagode. Assim como alguém que gosta de pagode e não gosta de rock faria o mesmo com relação a seu gosto musical. Eu poderia dizer a essa pessoa que ela está enganada, mas de que adiantaria isso? Ambos acreditam ter razão e que seus programas são verdadeiros. Transportando esse exemplo para outras esferas, como a política, a social, a cultural, etc, percebemos que a verdade então só aparece quando se leva em conta o outro.

 

    Essa percepção, no entanto, é uma ilusão. E essa atitude, principalmente para profissionais como jornalistas e historiadores, é extremamente perigosa. Se minha visão de mundo fosse “a verdadeira”, todas as outras automaticamente se tornariam falsas. E que razão há em se pesquisar e analisar algo que se tem certeza que é falso? Para não cair nessa armadilha, é preciso afirma que a minha visão de mundo sem ser falsa, também não é com maior razão, verdadeira. Só assim o historiador consegue recuar de forma a conseguir uma análise o mais neutra possível sobre seu objeto de estudo, pois sabemos também que “a neutralidade” é tão irreal quanto “a verdade”. Por isso estaria sendo hipócrita, ou no mínimo demagogo, se em algum momento dissesse que o programa de verdade contido neste texto fosse mais verdadeiro do que qualquer outro.

 

    Viver em um mundo onde o verdadeiro e o falso não existem pode parecer a princípio algo entranho e até mesmo amedrontador. Mas, vai por mim, logo você se acostuma.

 

 

Referência