Celulares e câncer – confrontando evidências com opiniões da OMS

Autor: Pedro Almeida

 

Afinal, telefones celulares causam câncer? Esta pergunta voltou aos holofotes como assunto controverso que sempre foi, quando a IARC (International Agency for Research on Cancer), parte da OMS, anunciou [1] que campos eletromagnéticos de radiofrequência passariam a constar no famigerado “Grupo 2B” da IARC, uma lista de agentes “possivelmente carcinogênicos para humanos” – uma compilação que, aliás, contém atualmente 266 outros itens [2] também possivelmente carcinogênicos – friso no “possivelmente”. SELO: a xícara no anel aromático, também conhecido como "Benzeno o Chá"

Esta notícia causou alarme, pois na tal lista do Grupo 2B constam agentes nada simpáticos, tais quais o clorofórmio, o já banido inseticida DDT, a mostarda de nitrogênio (similar ao gás mostarda, arma química poderosa) e o metal pesado chumbo. Só aí já dá pra sentir o drama do que significa constar nesta lista, não? Bem, na verdade não.

ResearchBlogging.orgOs supracitados agentes são ameaças à saúde humana não porque são comprovadamente causadores de câncer – clorofórmio e DDT são temidos por serem altamente tóxicos para humanos, enquanto mostardas de nitrogênio são citotóxicas e o chumbo é conhecido por causar problemas de desenvolvimento cerebral, especialmente em crianças.

Vale lembrar que a mesma lista do Grupo 2B inclui também como “agentes possivelmente carcinogênicos” o café, o uso perineal de talco, o risco ocupacional de ser um bombeiro e, pasmem… vegetais em conserva (picles) [2]. Na hora de alardear o risco de se usar telefone celular, bem, parece que a mídia prefere esquecer que o Grupo 2B contém estes itens e que o nome da própria lista é de agentes “possivelmente carcinogênicos” – novamente, friso no “possivelmente”.

Este texto não é uma crítica à IARC ou à OMS. É uma crítica a quem não sabe o que ela quer dizer com suas classificações, tampouco conhece a larga literatura de pesquisas realizadas na tentativa de correlacionar câncer e radiação de micro-ondas de baixa intensidade de telefones celulares.

A própria página inicial da IARC conta com o seguinte link, para o seguinte estudo:

http://jnci.oxfordjournals.org/content/early/2011/07/27/jnci.djr244.abstract – “Mobile Phone Use and Brain Tumors in Children and Adolescents: A Multicenter Case–Control Study”

A conclusão deste estudo, que analisou a vulnerabilidade de crianças e adolescentes à radiação de celulares e o risco de tumor cerebral, mostra que não existe ligação estatisticamente significante para dizer que o uso de celulares aumenta o risco de se desenvolver câncer no cérebro, neste grupo, de usuários jovens, que usam celulares há mais de 5 anos.

Existem outros estudos. Um artigo de um grupo de pesquisa dinamarquês [4], que estudou a incidência de câncer no país inteiro, de todos os usuários de celulares de 1982 até 1995 (420.095 usuários cadastrados), concluiu que o uso de celulares não aumentou o risco de câncer no cérebro, nas glândulas salivares, leucemia e outros cânceres (não relacionados a fatores como fumo, por exemplo) e que o tempo de uso também não afetou a incidência da doença na amostra. A hipótese não obteve suporte evidencial.

Um outro estudo, publicado no New England Journal of Medicine [5], o terceiro maior fator de impacto entre os periódicos, somente abaixo da Nature e Science – 53,48 – e o maior entre os de medicina, também endereçou a possível correlação entre o uso de celulares e tumores cerebrais. Já há dez anos. Diversos tipos de tumores foram investigados entre usuários: gliomas, meningiomas, neuromas acústicos, todos com intervalos de confiança de 95%. O estudo mostrou que os riscos de desenvolver estes tumores não eram maiores na amostra do que na população geral. Os tumores também não ocorriam de forma desproporcional na parte do cérebro mais próxima das orelhas onde o celular é utilizado. No entanto, o estudo sugeriu que era necessário ainda avaliar longos períodos, com usuários “pesados” de celular, para que uma conclusão mais sólida pudesse ser traçada.

O mesmo se repetiu para um estudo envolvendo 891 indivíduos, publicado no Journal of the American Medical Association [6], com pessoas de idades entre 18 e 80 anos, que concluiu que não há associação entre câncer cerebral e o uso de telefones portáteis.

Existe um possível mecanismo associando problemas de saúde à radiação de micro-ondas dos celulares? Bem, com radiações ionizantes, este mecanismo é bem claro, pois os fótons de alta energia quebram ligações químicas nas células [3]. Mas com radiação não ionizante, como o caso de micro-ondas de baixa intensidade, um ligeiro aquecimento localizado da massa encefálica é o máximo que se conseguiria, teoricamente. No entanto, é possível mostrar, através do padrão de radiação de uma antena próxima à cabeça funcionando em frequências típicas (900 MHz a 1800 MHz), que a densidade de potência no tecido cerebral não excede o valor de 4 W/kg estabelecido pela própria OMS [7]. Na verdade, esta densidade fica abaixo de 0,002% deste valor limite.

Então, afinal, o que a IARC/OMS quis dizer com sua classificação, já que não existe evidência que suporta a correlação entre câncer e celulares, e que o padrão de radiação implica em exposições largamente abaixo de limites estabelecidos pela mesma organização? Bem, por segurança, a inclusão da radiação de celulares no grupo 2B foi feita devido a UM ÚNICO ESTUDO que sugeriu um acréscimo desprezível na incidência de tumores malignos do tipo glioma e benignos do tipo neuromas acústicos em usuários de mais de dez anos. Mas vale lembrar que esta informação conflita com outros estudos similares, e que pode ser (e é, muito provavelmente) uma flutuação estatística.

A IARC se baseia em dados epidemiológicos, e tomou a decisão da inclusão com base em possibilidades de longa exposição, ao invés de evidências conclusivas (que não existem). Ela está disposta a considerar que possa existir uma correlação, mas não vê a evidência como forte o suficiente para considerar que exista de facto um efeito nocivo à saúde – daí a classificação 2B.

Por isto, mesmo que a possibilidade exista, ela é remota, e os mais avançados estudos não conseguiram concluir que exista tal relação. Não existe mecanismo conhecido de produção de tumores devido à radiação não ionizante, não existem relatos de tumores localizados próximos à área de uso do celular e ainda assim os níveis de exposição do tecido cerebral estão muito abaixo do recomendado pela própria OMS. A conclusão mais sensata é considerar a IARC só como mais uma mãe superprotetora – por ora, “possivelmente carcinogênico” significa também “possivelmente não carcinogênico”.

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Referências:

[1] – IARC/OMS – “IARC Classifies Radiofrequency Electromagnetic Fields as Possibly Carcinogenic to Humans”. Press Release, 31 de maio de 2011.

[2] – IARC/OMS – “Agents Classified by the IARC Monographs, Volumes 1–102”. 2011.

[3] – Ritchie King – “What the WHO’s Cellphone-Cancer Statement Really Means”. IEEE Spectrum, Tech Talk Blog, 03 de junho de 2011. http://spectrum.ieee.org/tech-talk/telecom/wireless/what-the-whos-cellphone-cancer-statement-really-means

[4] – Christoffer Johansen, John D. Boice, Jr., Joseph K. McLaughlin, Jørgen H. Olsen – “Cellular Telephones and Cancer – a Nationwide Cohort Study in Denmark”. Journal of the National Cancer Institute, Vol. 93, No. 3, February 7, 2001.

[5] – Inskip, P. D., Tarone, R. E., Hatch E. E., Wilcosky T. C., Shapiro W. R., Selker R. G., Fine H. A., Black P. M., Loeffler J. S., Linet M.S. – “Cellular-Telephone use and brain tumors”. New England Journal of Medicine, 2001.

[6] – Joshua E. Muscat, Mark G. Malkin, Seth Thompson, Roy E. Shore, Steven D. Stellman, Don McRee, Alfred I. Neugut, Ernst L. Wynder  –  “Handheld Cellular Telephone Use and Risk of Brain Cancer”. Journal of the American Medical Association, Vol 284, No. 23, December 20, 2000.

[7] – Kasumawati Lias, Dayang Azra Awang Mat, Kuryati Kipli, Ade Syaheda Wani Marzuki –“Human Health Implication of 900MHz and 1800MHz Mobile Phones”. Proceedings of the IEEE 9th Malaysia International Conference on Communications, 2009.

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Johansen, C., Boice, J., McLaughlin, J., & Olsen, J. (2001). Cellular Telephones and Cancer–a Nationwide Cohort Study in Denmark JNCI Journal of the National Cancer Institute, 93 (3), 203-207 DOI: 10.1093/jnci/93.3.203

Inskip, P., Tarone, R., Hatch, E., Wilcosky, T., Shapiro, W., Selker, R., Fine, H., Black, P., Loeffler, J., & Linet, M. (2001). Cellular-Telephone Use and Brain Tumors New England Journal of Medicine, 344 (2), 79-86 DOI: 10.1056/NEJM200101113440201

Muscat, J. (2000). Handheld Cellular Telephone Use and Risk of Brain Cancer JAMA: The Journal of the American Medical Association, 284 (23), 3001-3007 DOI: 10.1001/jama.284.23.3001

Lias, K. Mat, D.A.A. Kipli, K. Marzuki, A.S.W. (2009). Human health implication of 900MHz and 1800MHz mobile phones IEEE 9th Malaysia International Conference on Communications (MICC) DOI: 10.1109/MICC.2009.5431484

Aydin, D., Feychting, M., Schuz, J., Tynes, T., Andersen, T., Schmidt, L., Poulsen, A., Johansen, C., Prochazka, M., Lannering, B., Klaeboe, L., Eggen, T., Jenni, D., Grotzer, M., Von der Weid, N., Kuehni, C., & Roosli, M. (2011). Mobile Phone Use and Brain Tumors in Children and Adolescents: A Multicenter Case-Control Study JNCI Journal of the National Cancer Institute DOI: 10.1093/jnci/djr244