Revelações Não-Reveladas

 

 

 Bem, muitos vieram me perguntar o por quê de estar fazendo vídeos sobre ateísmo.
Pelo mesmo motivo pelo qual milhares de padres e pastores tentam cativar seus públicos.
Mas por valores inversos. E... inversão de valores não significa aversão a valores, veja bem...

De qualquer forma, eis aqui um dos motivos.
Há dois anos, discuti com uma das editoras com as quais trabalho a possibilidade de editar um livro sobre ceticismo e ateísmo. Os editores compraram a idéia e até ficaram entusiasmados.
Trabalhei bastante. Fiz mais de vinte entrevistas e consultei mais de 500 fontes, de modo a fazer um trabalho de reconhecimento literário que não despertasse críticas de conteúdo.

Bem, os originais do livro foram apresentados. Ficaram sob avaliação dois meses, como é de praxe. Mas... foram devolvidos com uma negativa de publicação.

Frustração? É claro que tive! Quem não teria, depois de dois anos de trabalho?
Revolvendo os originais, notei que um dos capítulos estava grifado. Era um capítulo que falava da Farsa de Fátima. E então me lembrei que o diretor da editora era devoto da santa. Devoto... com direito a peregrinação ao santuário de Fátima e tudo o mais.

Ah!!!!! Boa pessoa, o diretor. Mas meus esforços foram barrados por uma posição inlaica, e foram eclipsados pela ofensa pessoal, creio eu. Whatever... Pior para mim, que agora busco uma nova editora para apresentar os originais. Por enquanto, deixo aqui o tal texto, aquele que, tenho certeza, foi o causador da negativa. Leiam, reflitam e comentem.

 

 

Revelações Não-Reveladas

“Nenhum testemunho é suficiente para demonstrar um milagre, a não ser que o testemunho seja de natureza tal que a sua falsidade seja mais milagrosa do que o fato que tenta demonstrar”. (David Hume)


Dia 13 de maio de 1917. No pequeno vilarejo de Cova da Iria, em Portugal, três pequenos pastores analfabetos testemunham a primeira do que seria uma série de seis aparições da Virgem Maria, mãe de Jesus. As três crianças – Lúcia de Jesus, de 10 anos, e seus primos Francisco e Jacinta Marto, de 9 e 7 anos – apascentavam um pequeno rebanho de ovelhas nos campos do povoado quando, ao meio-dia, interromperam suas atividades para rezar um terço, como faziam habitualmente. Após o terço, ocuparam-se em construir uma pequena casinha de pedras, quando uma luz fortíssima varreu os céus. Temendo ser um relâmpago, as crianças logo trataram de se apressar de volta às suas casas, mas no caminho, foram barradas por outra luz, na forma de uma mulher ‘mais brilhante que o Sol’, de cujas mãos pendia um terço branco. A mulher disse-lhes que deveriam rezar muito e convidou-os a comparecer naquele mesmo local durante os cinco meses seguintes, sempre no dia treze. Assim eles fizeram e, nos meses de junho, julho, agosto e setembro foram agraciados com a aparição da senhora.
A história dos pastorinhos correu fronteiras e, no dia 13 de outubro, quando se prepararam para a última visita, mais de setenta mil pessoas os acompanhavam nos campos de Cova da Iria. Quando a mulher apareceu, houve grande alarde, e muitos joelhos se dobraram em louvor. A mulher disse, então, que era a ‘Senhora do Rosário’ e que deveriam erguer no local uma capela em sua honra.
Após a aparição, as setenta mil pessoas presenciaram o milagre prometido às crianças. O Sol, mudando sua cor e girando sob si mesmo, parecia precipitar-se sobre a Terra. Houve gritos de terror e pedidos de clemência. Mais tarde, Lúcia, a mais velha dos três pastores, narraria o fenômeno para o Vaticano, através de um bilhete simples que dizia: “O sol empalideceu, girou três vezes ao redor de si mesmo, como se tivesse rodas. E no final dessas convulsivas evoluções, ele pareceu saltar fora de sua órbita e se adiantar na direção das pessoas, num curso em zig-zag, parando e regressando à sua posição normal”.
Atestado por setenta mil pessoas, o Vaticano logo tratou de reconhecer o milagre. Alguns anos depois redigiu um comunicado que foi divulgado pela imprensa de todo o mundo. No pronunciamento oficial, o Papa informava que:

“A 13 de Outubro de 1917 estavam mais de 70 000 pessoas reunidas na Cova da Iria, em Fátima, Portugal. Tinham vindo presenciar um milagre que tinha sido anunciado pela Virgem Maria a três jovens visionários: Lúcia dos Santos e os seus dois primos, Jacinta e Francisco Marto […] Pouco depois do meio-dia, a Nossa Senhora apareceu aos três visionários. Quando estava prestes a partir, apontou para o Sol. Lúcia repetiu o gesto, emocionada, e as pessoas olharam para o céu […] Depois, uma onda de terror varreu a multidão porque o Sol parecia romper-se dos céus e esmagar as pessoas horrorizadas […] Justamente quando parecia que a bola de fogo iria cair e destruí-los, o milagre parou e o Sol reassumiu o seu lugar normal, brilhando pacífico como nunca".

Além do milagre, a santa também havia agraciado as crianças com três segredos que deveriam ser revelados em momentos oportunos. Tais segredos foram confessados ao Vaticano, que em 1918 tratou de divulgar o primeiro deles. Este previa o final da Primeira Guerra Mundial. E, realmente, a profecia se concretizou. Era o início do processo de reconhecimento do grande milagre.
Francisco morreu em 1919 e sua irmã Jacinta em 1920. Restou, então, apenas Lúcia, que logo tornou-se freira carmelita, mantendo-se como a única a ter presenciado todas as aparições da santa e detentora de seus segredos. O segundo e o terceiro segredos, programados para serem revelados segundo a vontade do papa, ainda mantinham-se como mistérios invioláveis.

Em abril de 1939, o papa Pio XII revelou o segundo segredo. Este previa o início da segunda guerra mundial e a conversão da Rússia ao ‘sagrado coração de Maria’. Com a iminência da guerra anunciada por meios divinos, católicos de todo o mundo foram convocados a se preparar e orar com ardor.
A mãe de Jesus, eterna intercessora entre deus e os Homens, jamais poderia ter errado numa profecia. Assim sendo, cinco meses depois a segunda grande guerra teve início. Antes, porém, o papa veio novamente a público falar sobre o terceiro segredo. Com a tensão e o pavor que dominavam os católicos na época, o terceiro segredo veio como uma bomba quando o papa revelou seu caráter apocalíptico. “O mundo está à beira de um precipício assustador (...) Os homens devem se preparar para um sofrimento tal como a humanidade nunca viu”.
Em 1976, o então cardeal Carol Wojtyla, durante uma visita aos Estados Unidos revelou que a humanidade estava se deparando com “a maior confrontação histórica por que passou a humanidade. Não creio que grande parte da sociedade americana, ou grande parte da comunidade cristã, compreenda isso muito bem. Estamos agora mesmo vendo a confrontação final entre a Igreja e a anti-Igreja, entre o Evangelho e o anti-Evangelho. É uma provação que a Igreja deve enfrentar”. Poucos anos depois, já papa, ele viria a afirmar que o mundo iria “passar por grandes provações num futuro não muito distante, provações essas que exigirão que estejamos prontos para dar nossas vidas”.
A despeito de todo terror que a ICAR parece incutir ao terceiro segredo de Fátima, ele ainda é mantido sob sete chaves. Curiosamente, a Irmã Lúcia foi proibida pelo Vaticano de falar publicamente sobre Fátima e suas profecias, atitude suspeita da ICAR, visto que o próprio deus deve ter escolhido Lúcia para transmitir sua mensagem à Humanidade. Sobre isso, o padre Nicholas Gruner, diretor do Fátima Center, afirma que “A Nossa Mãe Santíssima queria que fosse divulgado todo o Terceiro Segredo. Mas tudo indica que ainda está por revelar o Segredo completo (...) A Irmã Lúcia era o único Católico do mundo que não podia falar publicamente sobre a Mensagem e o Terceiro Segredo sem autorização prévia do Vaticano. Desde a alteração do Direito Canônico em 1966 que todos os membros da Igreja têm liberdade de falar e escrever o que entenderem sobre a Mensagem de Fátima, exceto aquela que Deus escolheu para dar a mensagem à humanidade”.
De fato, desde 1960, irmã Lúcia vinha sendo vítima de uma Lei de Silêncio imposta pelo Vaticano a ela (e somente a ela). Durante os últimos quinze anos, diversas entidades, entre elas muitas católicas, escreveram ao Vaticano pedindo o fim do silêncio de Lúcia, autorizando-a a confirmar ou negar publicamente as declarações que lhe foram atribuídas. A autorização nunca foi expedida. Irmã Lúcia morreu em fevereiro de 2005, aos 97 anos sem cumprir a missão da qual foi incumbida.
No local onde houve as aparições foi erigida uma catedral chamada ‘Santuário de Fátima’, que atrai anualmente cerca de cinco milhões de peregrinos de todas as partes do mundo. São católicos que buscam no local sagrado a cura de uma doença ou o agradecimento a uma graça alcançada.
O milagre de Fátima é um dos poucos reconhecidos pela ICAR. Muitos hão de convir que, tendo sido testemunhado por setenta mil pessoas e tendo sido confirmado através do primeiro e do segundo segredo, pouco há no sentido argumentativo que lhe tire o crédito. Se apenas Lúcia o tivesse observado, suas palavras poderiam ser questionadas e até ignoradas, ela provavelmente havia sofrido uma alucinação ou contara uma mentira deslavada. Mas não foi isso que aconteceu. Existe, por trás do testemunho de Lúcia, a corroboração de setenta mil pessoas que presenciaram o mesmo fenômeno. A menção de uma alucinação coletiva é tão improvável que pode ser descartada. Uma mentira que abrangesse tamanha quantidade de pessoas também não poderia se manter coesa por muito tempo. Os milagres de Fátima parecem além de questionamentos.
Naquele fatídico dia, essas testemunhas presenciariam aquele que seria um dos maiores fenômenos naturais de todos os tempos. Podemos imaginar tal maravilha? O Sol girando sobre si mesmo e arremetendo-se sobre a Terra? A cena deve ter sido mesmo horripilante.
Se é que aconteceu mesmo.

Hoje, são levantadas questões sobre os milagres de Fátima que comprometem a corrente filosófico-milagreira que envolve o lugar. O argumento científico fica por conta do ‘milagre do Sol’. O fato do Sol ter girado sobre si mesmo durante doze minutos para depois arrebatar-se em direção à Terra de forma ameaçadora não constitui o maior dos prodígios, mas, sim, o fato de que o mesmo fenômeno tenha passado despercebido pelo restante dos 1,5 bilhões de habitantes do planeta que gozavam da luz do dia (outros 1,5 bilhões estavam no lado noturno do planeta). A igreja pouco se importou com as questões ‘frívolas’ que a ciência levantou em questionamento ao ‘milagre’. Um único giro do Sol faria a atmosfera terrestre incandescer e torrar toda a vida animal e vegetal, faria ferver os oceanos e afetaria as órbitas dos planetas mais próximos, afastando-os de seus eixos. Enfim, desmembraria todo o sistema solar interior.


Mas nada disso aconteceu, o que leva a crer que o milagre da virgem tenha sido tão somente uma ilusão de ótica, um artifício de luz, que afetara somente aqueles que compareceram ao povoado de Cova da Iria naquele fatídico dia treze. O Sol que pairava sobre Fátima não era exclusivo do local. Era o mesmo Sol que nos aquece nos dias de hoje. Era o mesmo Sol que banhava de luz as demais cidades da Europa naquele mesmo momento. Se ele realmente se moveu, então a ilusão de ótica se aplica a todos os demais seres humanos fora de Fátima, o que constitui milagre muito maior.
Nesse ponto, as palavras de David Hume, na abertura desse capítulo, se encaixam com extraordinário e inquestionável método de aplicação do ceticismo. Isso dois séculos antes do prodígio mariano ter local na história. No século 20, muitos seriam aqueles que viriam a questioná-lo.
Em Portugal, um corajoso padre, Mário de Oliveira, ergueu as mangas e decidiu impugnar contra o fenômeno com argumentos históricos convincentes que parecem trazer uma luz de sobriedade sobre o santuário.
Em seu livro ‘Fátima Nunca Mais’, o padre tece um pano de fundo político que, não por acaso, pode ter manipulado a história de modo a engrandecê-la, dando-lhe contornos sobrenaturais bastante duvidosos, mas, ainda assim, capazes de arrebanhar multidões.
A aparição da Virgem aconteceu durante o reinado de Benedito XV, rei que era fiel à política católica imposta pelo Vaticano aos países europeus de origem latina. Benedito XV tinha uma intenção clara de vencer a Primeira Guerra Mundial para o Vaticano e seus aliados, pois era um seguidor cego do papa.
Naquela época, Fátima era apenas uma cidadezinha montanhosa e desolada, onde 95% da população era analfabeta e extremamente religiosa. Sem qualquer formação científica, muitas dessas pessoas não faziam idéia de que o Sol é uma esfera de hidrogênio e hélio milhares de vezes maior que a Terra e que queima combustível através de reações nucleares que duram bilhões de anos.
Poucos dos seus habitantes sabiam o que era exatamente a Rússia. Para muitos, era um país de ateus, separados do resto do mundo pela iniqüidade e pelo pecado. Verdadeiros devoradores de criancinhas. Ao dizer que a Rússia se converteria, sendo consagrada pelo ‘santo padre’, a ‘Senhora’ prometia o fim de uma nação cuja periculosidade ameaçava a paz e a integridade entre as nações. O Vaticano fez questão de espalhar a ‘boa nova’ a todas as nações, destacando que se não houvesse a conversão russa, seus erros se espalhariam pelo mundo inteiro, causando guerras e perseguições, e que várias nações seriam destruídas.
Mas havia um prêmio de consolação prometido pela santa. A igreja católica triunfaria no final e um longo período de paz seria concedido ao mundo. Eugênio Pacelli, que mais tarde se tornaria Pio XII, logo tratou de patrocinar eventos que garantissem o cumprimento das promessas. Para isso, criou uma política de apoio ao fascismo na Itália e ao nazismo na Alemanha. Este homem tornou-se o principal instrumento da subida de Hitler ao poder, forçando o Partido Católico Alemão a votar em Hitler nas eleições alemãs de 1933.
O plano era simples. Com Mussolini e Hitler no poder, o comunismo na Europa seria banido de uma vez por todas, esmagando, em conseqüência, a Rússia. Em 1929, durante o Tratado de Latrão, Pacelli chamou Mussolini de ‘Homem enviado pela Providência’ ao defendê-lo como uma causa nobre para a Europa. Em 1938, com ambos os ditadores no poder, 65% da Europa seguia o regime fascista.
Uma grande conspiração política pode antever guerras com décadas de antecipação. O segundo segredo de Fátima falava do início da Segunda Guerra Mundial e a conversão da Rússia à ‘verdadeira fé’. Para aqueles que eram envolvidos com os regimes fascistas e nazistas, a iminência da guerra não era surpresa. O fascismo jamais chegaria ao poder por outro meio que não a força bruta.

Ao mesmo tempo em que cresciam as tensões políticas, a Europa entregava-se ao culto à ‘Senhora de Fátima’. A promessa da conversão russa acenava como uma vitória da ICAR sobre todo o mal. Dois anos antes de eclodir a segunda guerra, os regimes fascistas já alimentavam o desejo deliberado da aniquilação russa.
Com o estouro da guerra em 1940 e a rápida derrota da França protestante, a certeza do cumprimento das profecias de Fátima adquiria força crescente. Pacelli, agora papa Pio XII, convocou todos os católicos a se juntarem ao exército na luta contra os russos. Como a maioria dos católicos era devota fiel de Nossa Senhora de Fátima e conheciam as profecias, logo os exércitos nazistas e fascistas adquiriram um tamanho respeitável e ameaçador. Em outubro de 1941, enquanto os exércitos faziam o cerco ao redor de Moscou, Pio XII foi até o santuário de Fátima convocando os católicos a formarem uma grande corrente de oração para apressar o cumprimento da promessa.
Quando, em 1942, Hitler declarou que a Rússia comunista havia sido finalmente derrotada, Pio XII redigiu uma mensagem de Jubileu, anunciando o cumprimento da profecia e consagrando o mundo inteiro ao ‘Imaculado Coração’. Em Portugal, o cardeal Arcoverde divulgou a boa nova dizendo que “as aparições de Fátima abrem uma Nova Era (...) o delinear do que a Virgem Santíssima está preparando para o mundo inteiro”.
A Nova Era tão apregoada pelo santo papa era uma Rússia sendo dizimada do mapa, a Ásia conquistada pelo Japão e um continente europeu totalmente nazificado. Contudo, com a intervenção dos Estados Unidos, o ‘império de Fátima’ foi banido do planeta e o regime nazi-fascista desapareceu. Com o fim da guerra, em 1945, Pio XII ainda teve que se submeter à vergonha de ver a Rússia comunista ressurgir no cenário mundial como a segunda maior potência armamentista do planeta, engolindo um terço dos países da Europa e fechando-se em si mesma numa das mais invejáveis demonstrações de auto-sustentação comunista da história.

Com o fim da guerra e uma Europa destroçada e dependente da força econômica do Novo Mundo, o culto à Fátima havia sofrido um grande declínio e precisava ser reavivado. Já em outubro de 1945, o Vaticano ordenou peregrinações ao santuário e Pio XII dirigiu-se a todos os fiéis, admoestando-os de que a partir daquele momento não poderia haver mais neutralidade e que os católicos deveriam começar a “se organizar como cruzados”. Dois anos depois, com o início da Guerra Fria, o ódio aos russos era latente na maioria dos países católicos. Nesse ano começou a circular entre as paróquias de todo o planeta uma imagem da santa, acompanhada por uma mensagem que falava abertamente que “o perigo comunista ainda paira sobre todas as cabeças”. Sobre isso, padre Mário de Oliveira não encontra ressalvas ao afirmar que:

“A imagem foi enviada de país em país, a fim de desencadear o ódio contra a Rússia. Todos os governos a saudavam. Dentro de poucos anos, à medida em que crescia a Guerra Fria, a imagem já havia percorrido a Europa, Ásia, África, Américas e Austrália, tendo visitado 53 nações. A gigantesca brecha entre o leste e o Oeste aumentou”.

Dominada pela fome, desemprego e pobreza ocasionados por quatro anos de guerra, a Europa entregou-se à esperança dos áureos tempos de grandeza através da fé. O catolicismo crescia exponencialmente e Pio XII, sempre atento à concretização das promessas da santa, decidiu fortalecer o front anti-russo excomungando qualquer pessoa que demonstrasse simpatia ao comunismo. Paralelamente, teólogos do mundo todo, exortados pelo Vaticano, pressionavam os Estados Unidos a usarem a Bomba Atômica contra os russos ao mesmo tempo em que enviavam a imagem da santa para a Rússia, para ser exposta na Igreja dos Diplomatas Estrangeiros, com a clara intenção de “aguardar a iminente liberação da Rússia Soviética”. A ‘iminência’ dessa liberação sequer foi vista pelo pobre Pio XII, pois só aconteceu quarenta anos depois.
A conspiração contra o comunismo russo tinha em Fátima sua principal arma. Pio XII veio a público em 1949 dizer que a santa havia aparecido quinze vezes a uma freira católica nas Filipinas, sempre admoestando-a a lutar contra o comunismo. Nada mais digno que a santa fizesse suas aparições também ao principal representante da ICAR no planeta. E assim o fez. Por três vezes, a Senhora do Rosário surgiu diante de Pio XII, levando a ele a divina e gloriosa mensagem de que o comunismo deveria ser banido do planeta.
Ainda em 1949, o papa arriscou-se a dizer que o terceiro segredo de Fátima alertava sobre o início da Terceira Guerra Mundial. Coincidentemente, o senador estadunidense McCarty começou a advogar o início da guerra. Havia um grande número de católicos infiltrados nos governos dos principais países americanos e europeus. Também nos Estados Unidos, durante uma convenção em agosto de 1945, o general católico Mac Grath dirigiu-se às suas tropas advertindo-os a se prepararem para a guerra e vestirem “suas armaduras da Igreja Católica militante, em batalha para salvar o cristianismo”. Para ele, a guerra era necessária para manter a soberania dos Estados Unidos e da igreja. O secretário de defesa norte-americano James Forestal, uma das mais proeminentes personalidades do cenário político da época, havia sido envenenado pelo desejo da guerra aberta. Um dos principais antagonistas do comunismo, Forestal ajudou Pio XII a vencer as eleições na Itália, através de doações polpudas do governo estadunidense e de suas próprias economias. Talvez Forestal sofresse de alguma síndrome paranóica compulsiva, pois, um dia, ao ouvir o som de uma aeronave de guerra sobrevoando a capital Washington, saiu pelas ruas aos berros de “estamos sendo atacados!”. Alguns meses depois, ignorando as promessas do papa de que venceriam qualquer guerra contra os russos, ele pulou do 16º andar do Capitólio, temeroso de perder a guerra, quando esta viesse.
Não por coincidência, o código que os dirigentes católicos usavam quando falavam sobre a terceira guerra era ‘Fátima’. “Quando Fátima vier, seremos vencedores”, “Fátima dará cabo dos comunistas”, “Devemos convocar todas as nações do bem a lutarem ao lado de Fátima”.
Porque a mãe de Jesus teria tanto interesse pela extinção do comunismo? Seria ela uma entusiasta da política, mesmo depois de santificada? Ou todo o milagre de Fátima seria uma artimanha da ICAR criada em tempos de guerra para manter-se soberana e não perder adeptos para o comunismo ateísta? Por quê a mãe de Jesus deixou de pregar mensagens de amor e paz para esgueirar-se entre os caminhos da política, da guerra e do extermínio de cidadãos comunistas? Tendo aparecido quinze vezes para uma freira filipina solitária para falar sobre o comunismo russo, não teria feito melhor figura se aparecesse para curar os pobres desenganados que se arrastam por quilômetros em seu nome, esfolando seus joelhos em louvor, enquanto ressecam suas gargantas em incontáveis terços rezados, num sacrifício que busca a cura de uma doença ou o perdão de um pecado?
O incômodo russo a Pio XII não devia-se apenas ao comunismo, mas também pelo fato daquele país seguir o catolicismo ortodoxo, verdadeira pedra no sapato de todos os papas. Ao dizer que parte do terceiro segredo de Fátima previa o início da Terceira Guerra Mundial, estaria Pio XII manipulando dados históricos de forma a criar uma aliança entre fé e política? Seria o terceiro segredo uma página em branco, convenientemente guardada para ser usada através de uma manipulação inescrupulosa a favor da manteneção da ICAR como poder condutor das massas?

Ao que tudo indica, há um movimento em Portugal, levado a cabo por padres e representantes da ICAR, a fim de desmascarar o que muitos chamam de ‘conspiração de Fátima’. Entre os mais entusiastas se encontra o padre Mário de Macieira, adepto de uma teologia que não admite milagres ou manifestações divinas. Em um artigo publicado em seu site oficial, o padre diz que “tenho, por isso, para mim que Fátima e a sua Senhora, mais do que toleradas, deverão ser teologicamente denunciadas e desmascaradas, para que as populações tomem consciência do veneno que ambas veiculam, sob o disfarce de grandiosas manifestações de fé”. No entanto, para manter-se em paz com a igreja que representa, Macieira ressalva que suas críticas são feitas “por amor a Maria de Nazaré, a mãe de Jesus. E por fidelidade ao que há de mais genuíno na Fé cristã- jesuíta”.
Engana-se aquele que acredita que o movimento para desacreditar (leia-se: desmascarar) Fátima é um fenômeno dos anos 1990 e 2000. A primeira obra do gênero foi escrita ainda em 1958 pelo dramaturgo português e católico fervoroso Tomás da Fonseca. ‘Na Cova dos Leões’ foi a primeira obra a tratar dos ‘milagres’ de Fátima de forma cética e denunciatória. O livro causou escândalo na época e rendeu a Fonseca sua excomunhão imediata pelo papa Pio XII. Punição aparentemente esperada, visto ser ele um dos condiscípulos do cardeal Arcoverde, braço direito do rei Benedito XV. Tendo comparecido ao local das aparições justamente no dia em que se propagava o milagre dos milagres, Tomás nada viu além de uma centena de doentes esperançosos e um único repórter nomeado pela própria ICAR para cobrir o evento. Nada de setenta mil pessoas. O repórter, Avelino de Almeida, escrevia, na época, para o jornal ‘O Século’, de Porto. Abaixo, uma breve reprodução do artigo que foi publicado no dia 15 de outubro, dois dias depois das aparições.

COISAS ESPANTOSAS!
COMO O SOL BAILOU AO MEIO DIA EM FÁTIMA

OUREM, 13 de Outubro

Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter à terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zenit. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-hia estar-se realizando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:
- Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!
(...) Aos olhos deslumbrados d"aquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos bíblicos e que, pálido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fora de todas as leis cósmicas - o sol «bailou», segundo a típica expressão dos camponeses.
(...) E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior número confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porém, declaram ter visto o rosto risonho da própria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artifício, que ele baixou quase a ponto de queimar a terra com os seus raios... Há quem diga que o viu mudar sucessivamente de côr...”
Tomás causou furor ao afirmar que a matéria do tal repórter era um deslavado embuste e uma ofensa às mentes mais perspicazes e escandalizou toda comunidade católica ao dizer que a aparição de Fátima nada mais era do que um truque barato, encenado por uma mulher contratada para tal e um parco show de luzes que só enganaria aqueles “cuja mente doente de esperança ansiava por uma salvação que não viria”. Com um sarcasmo demolidor, ele destitui Fátima de qualquer poder sobrenatural com uma convicção venenosa. Tomás morreu alguns anos depois da publicação de seu livro, que jamais foi reeditado porque a igreja comprou os direitos autorais de seus herdeiros, garantindo, assim, que a obra deixasse de circular.
Mas a semente da desconfiança havia sido plantada e alastrara-se com velocidade espantosa. Nas universidades portuguesas, professores ensinavam a seus alunos a manipulação barata criada pela ICAR associando o falso milagre ao desígnio de engendrar a política européia. Em 1970, outro livro-bomba chegou ao mercado literário, dessa vez através do ex-padre despertado ao ateísmo Prosper Alfaric. ‘A Fabricação de Fátima’ foi fruto de um intenso trabalho de investigação de Alfaric, que denunciava Pio XII como um “fabricante de falsos milagres e um político com luvas de ferro”. O livro ganhou uma publicação no Brasil, mas esta também se esgotou e desapareceu.
Em 1971, João Ilharco, grande escritor e ensaísta português, lançou ‘Fátima Desmascarada’, onde denuncia as aparições como “uma conspiração, do princípio ao fim, por parte de agentes clericais”. Diferente de Tomás da Fonseca, Ilharco defende que diversos espelhos foram estrategicamente escondidos na paisagem, orientando os raios solares sobre uma mulher fantasiada.
Nove anos depois, em 1980, a historiadora Fina D’Armada publicou ‘Fátima – O que se Passou em 1917’. Como não podia deixar de ser, o fenômeno OVNI veio à tona e Fina afirmou que o milagre acontecera, mas que fora forjado por alienígenas. A escritora deveria ter se mantido no anonimato, pois os católicos defensores de Fátima condenaram seu livro pela blasfêmia, enquanto os céticos críticos o recriminaram pela ridicularidade de seus argumentos.
Apesar do descrédito crescente que oprime o santuário de Fátima, aqueles que vêem na fé a última esperança aos seus anseios e desejos continuam a peregrinar até o local. Atualmente, o santuário é um dos maiores tributários de indulgências do mundo, ao lado do santuário de nossa senhora Aparecida, no interior do estado de São Paulo.
Até hoje, apenas três milagres alcançados em Fátima foram divulgados, e nenhum deles reconhecido pela ICAR, entre eles, um peregrino sem nariz que, repentinamente, teve-o de volta (sic) e duas pessoas curadas de câncer. Mas nada, nenhum deles, foi comprovado.
Analisados matematicamente, os prodígios alcançados em Fátima apresentam uma estatística desoladora às milhões de almas esperançosas que para lá migram todos os anos em busca de milagres pessoais. Com cinco milhões de visitas anuais, as duas pessoas curadas de câncer representam nada mais do que 0,004-50000 de pessoas entre as dezenas de milhões de peregrinos que buscam alcançar uma graça divina. Adeptos da medicina alternativa através de ervas medicinais têm melhor resultado; na verdade, o número de curas através de homeopatia é 3.000% maior. Como disse padre Mário de Oliveira, com sua acidez leviana:

“Que se saiba, nenhum doente, dos muitos que lá vão com a ilusória esperança de cura, foi curado. A bênção dos doentes, apesar da forte emoção coletiva que costuma provocar, não teve qualquer efeito prático. Nunca teve. Nem terá. Nem sequer foi capaz de suscitar uma sugestão coletiva bastante, que fizesse andar quem está paralítico, ou fizesse ver quem está cego (...) Até hoje, ao longo destes mais de oitenta anos, a senhora de Fátima não fez pelas pessoas que lá vão, a ponta de um corno. Muito pelo contrário, desde a primeira hora, mostrou-se interessada em que as pessoas entregassem o seu dinheiro, para lá ser erguida uma capela em honra dela! (...) Felizmente, os seres humanos, nomeadamente, cientistas e investigadores, médicos e engenheiros e tantos outros especialistas, mulheres e homens, na sua condição de simples seres humanos, têm feito e continuam a fazer todos os dias muito mais pela Humanidade e pelo nosso bem-estar individual e coletivo, do que aquela senhora de Fátima, que, no dizer do guião da dramatização teatral de 1917, vinha do céu”.

Aos que buscam a cura através da fé, talvez seja aconselhável um tratamento alternativo através da verdadeira medicina. Os médicos não fazem questão de arcar com seus egos. O prestígio pela graça alcançada pode ser, tranqüilamente, creditado a deus, ou à virgem, sem acanhamento pela ingratidão. É o que comumente acontece.
Em tempo: a despeito de Pio XII ter sido um grande defensor da guerra e apoiador do nazismo, condutor de uma das mais proeminentes conspirações político-religiosas de todos os tempos, hoje ele está em vias de ser canonizado, sendo apresentado como um dos mais infalíveis papas da história. Em seus últimos anos de vida, acometido de uma grave doença, ele era visto com freqüência conversando com Jesus, e isso ajudou, em muito, para seu processo de canonização.

Atualmente, não são muitos aqueles que abdicam da ciência em favor da fé nos momentos de maior desamparo. O Homem têm aprendido a arte do discernimento quando sua própria saúde ou de seus queridos está em xeque. Há um consenso velado até entre os teístas mais entusiastas de que a ciência, por mais perniciosa que pareça, é capaz de consertar os misteriosos desígnios de deus, quando este castiga ou ‘prova’ um bom cristão com uma doença infecciosa ou um tumor benigno.
Houve uma grande evolução, não há dúvida, dos homens em aceitarem a intervenção da ciência no destino trágico que deus nos reserva ao nos presentear com uma doença. Poucos são aqueles que recorrem a galhinhos de arruda ou poções mágicas para combater algum mal. Já se foi o tempo em que a infalibilidade papal permitiu a Leão XII, em 1829, dizer que “Quem quer que recorra à vacina deixa de ser um filho de Deus, pois não se pode mexer no equilíbrio do corpo humano”. Já se foi o tempo em que os Testemunhas de Jeová pregavam que “Vacinas são uma violação direta da aliança perpétua que deus fez com Noé depois do dilúvio (...) Vacinas nunca salvaram vidas humanas. Não evitam a varíola”. Hoje, o Homem quer uma garantia a mais de que suas orações serão ouvidas em casos de doença. Vacinas e remédios são um bom canal de ligação entre o ardor da súplica e a cura.

Há certa graça no pensamento que se confunde com humor negro. O fiel, durante anos, alimenta uma resignação louvável em relação à sua própria vida e os desgostos que lhe são conferidos pelo misterioso propósito que deus lhe reservou no ‘livro da vida’. Para tudo há uma oração, mas há três fatores que sobrepujam todos os demais: são a adoração, a confissão e a súplica. Invariavelmente, esta última pouco dá em retribuição. Apesar de ser a mais lógica das manifestações de oração, as estatísticas de atendimento às súplicas não são das mais entusiastas. Quanto mais fervorosa a súplica, quanto mais difícil o objeto de desejo, menor sua probabilidade de ser atendida.
A descoberta de um câncer, por exemplo. Suponhamos que seja benigno. Aquele que é verdadeiramente fiel, ao descobrir tal desgraça em seu próprio corpo, vai implorar a deus com todo seu ardor para que este o ajude a livrar-se de tamanho mal. Porém, se tiver um bom plano de saúde, também vai tratar de buscar um tratamento intenso que o ajude. Sua confiança em deus é inabalável, mas não custa prevenir. Várias sessões de quimioterapia depois, a pessoa recebe o diagnóstico tão esperado. O médico, sorrindo por ter vencido o cavaleiro negro da morte, abana-lhe o último resultado da biópsia e lhe entrega nas mãos, com a satisfação do trabalho bem realizado. As palavras que lhe escapam da boca são como uma bênção:

“Conseguimos, você está curado!”
E a resposta, inevitável, quase inconsciente, que vem acompanhada de lágrimas, é:
“Graças a deus!!! Graças a deus!!!”

Poucos dão o verdadeiro crédito ao médico e ao desenvolvimento da medicina. Isso é natural. Os médicos já estão acostumados. Conhecem o valor da fé. Muitos deles, ao se depararem com um diagnóstico de total desesperança, aconselham tratamento intenso e emendam: “Rezar também será bom”. Se um dia, você, leitor, ouvir essas palavras de seu médico, espere pelo pior.
Judith Hayes, colaboradora do ‘Freethought Today’, único jornal estadunidense de livre-pensamento, é neta e bisneta de pastores luteranos e uma desgraça para sua família. Cética por opção, ela semanalmente escreve artigos onde questiona preceitos religiosos e contesta acontecimentos improváveis divulgados por doutrinas suspeitas. Tudo baseado em experiências familiares! Em seu artigo ‘Oremos’, publicado em 2002, ela nos leva a pensar sobre o fenômeno da oração e suas conseqüências. Vamos desenvolver um dos exemplos que ela cita no artigo.
Imaginemos um estudante negligente de um curso superior qualquer. Durante todo o ano ele descuidou-se dos estudos e suas notas não são particularmente notáveis. Na verdade, são bastante ruins. É o dia da última prova e nosso aluno-modelo – com trocadilhos – esqueceu de estudar. Ele precisa de uma nota nove se quiser passar de ano. Mas, ao invés de pedir a um amigo para ajudá-lo nos poucos minutos que antecedem a prova, ele se tranca no banheiro e ora fervorosamente para que deus permita que ele passe de ano. Seu desespero é tamanho que ele tem certeza que deus ouviu ao seu apelo.
No dia dos resultados, sua ânsia é tão palpável quanto os cabelos despenteados pelo pânico. Mas, ao receber o resultado, ele se vê contemplado com uma nota dez. Dez! No mesmo momento em que toma consciência do fato, ele agradece a deus pela ajuda. Chega a beirar o louvor explícito. Abraça os amigos e grita sua conquista, mas, no íntimo, sabe que o mérito não é seu, pois teve uma ajuda divina.
Na saída da universidade, ele está tão contemplativo que sequer repara na mãe mendiga que, sentada na calçada, estende a mão para pedir-lhe uma esmola, na vã tentativa de conseguir alimentar seu filho que está chorando de fome em seu colo. Ela ora fervorosamente para que deus interceda junto a um dos alunos da universidade, qualquer um, para que lhe estenda uma nota de real. Mas é ignorada por todos, já acostumados a ignorá-la durante todo o ano letivo em que esteve ali.
Quais foram os desígnios de deus ao atender ao apelo do aluno preguiçoso e ignorar a mãe desesperada? Existe um propósito superior por trás de tudo, ou o fato narrado acima é apenas mais um, entre bilhões, submetido à lei das probabilidades a que parecem condenadas todas as orações? Sobre isso, Judith Hayes fala:

“O fim da fome mundial, um pedido dos mais louváveis, ainda está longe de se realizar, a despeito de incontáveis orações. Portanto, as pessoas são encorajadas a pedir por coisas mais fáceis de se conseguir, como a Tia Helena se curar logo do resfriado ou as crianças irem bem nos estudos. Jogadores de futebol caem de joelhos e agradecem a Deus pelos gols que marcam. Num mundo cheio de fome, doenças, violência e estupro, tais pedidos são um desrespeito a um deus supostamente onipotente. Para cada pessoa que atribui a Deus a recuperação ‘milagrosa’ de uma doença grave, há outra pessoa também com uma doença grave que, apesar das orações, acaba morrendo. As famílias rezam pelos soldados mas eles morrem - e soldados por quem ninguém rezou sobrevivem. Coisas ruins acontecem a pessoas boas apesar de todas as preces que elas fazem, coisas ruins acontecem a pessoas ruins, coisas boas acontecem a pessoas boas e coisas boas acontecem a pessoas ruins(...) As coisas não melhoram para os que crêem em Deus e a vida pode ser muito agradável para os que não crêem. Se formos julgar apenas pelos resultados que desafiam a lei das probabilidades, então o poder da oração é nulo”.

Pensemos friamente nas palavras de Judith. Elas são incontestáveis até para o mais fiel dos crentes em deus. Imagine todas as orações que você já fez, todas as súplicas que dirigiu a deus ou ao santo do qual é devoto. É claro que a maioria desses pedidos não se concretizou, pois você não tem uma vida perfeita. Se deus atendesse a todos os seus pedidos, não tardaria a você pedir um carro importado, uma mansão de doze quartos ou um salário de jogador de futebol.
Ora, mas existe uma chance dos pedidos serem atendidos”, você pode dizer. E quem pode questioná-lo quanto a isso? No entanto, ao admitir que existe uma crença na oração e seus resultados, você se confronta com a necessidade inevitável de tentar explicar a natureza aleatória das graças recebidas. Seria deus um crupiê que gira uma roda de loteria, sorteando aqueles que serão dignos de sua graça? Ou ele escolhe apenas alguns, ignorando milhões de outros, apenas para manter acesa a chama da fé? Se você se volta a deus e agradece pelo alimento que chega à sua mesa todos os dias, está creditando a ele o poder de alimentá-lo. Mas, se lhe falta comida, também é deus quem o submete à provação da fome. O poder de dar também é o poder de tirar. Se você aceita que deus é o supremo comandante que permite não faltar pão em sua mesa, deve se perguntar porque outros não recebem a mesma consideração por parte dele. É necessário perguntar, caso contrário, você deve admitir que deus tem preferências e não é de todo justo. A desculpa dos sete bilhões também é muito boa. Com tanta gente no mundo, fica difícil para deus atender tantas preces. Papai Noel deve enfrentar um problema semelhante no natal, visto a maioria das crianças não ganhar presentes.
Alguns podem dizer – e dizem – que a sabedoria divina é cercada de mistério e que aqueles que padecem de fome, doenças e tragédias estão pagando pelos seus pecados. Então, quais são os pecados dos recém-nascidos que morrem dias depois de nascer pela falta de leite de suas mães subnutridas? Quais os pecados do bebê que fica soterrado após um terremoto e é devorado por ratos? Quais os pecados da criança que nasce disforme e tem que viver toda uma vida carregando seu defeito congênito enquanto outras nascem e crescem saudáveis e belas, apontando o dedo e rindo de suas marcas? Não seria melhor se deus atendesse a todos os pedidos de seus filhos desesperançados, ao invés de sortear aleatoriamente quais aqueles que são dignos de sua atenção e misericórdia? O que faz com que homens e mulheres de todas as épocas continuem a orar e implorar a um deus que mal os ouve nos momentos de maior desamparo? O desafio de crer numa ciência acima de deus é realmente tão difícil a ponto de cegar a mente do Homem e impedi-lo de buscar a verdade científica?
Talvez fosse fácil substituir a fé pela ciência, se deus e seu exército de divindades não insistisse em, de tempos em tempos, aparecer para alguns poucos afortunados. Essas aparições, assim que são transmitidas de boca em boca, acabam chegando até algum representante dos meios de comunicação e tornam-se ícones de grandes romarias e peregrinações. Talvez, nos tempos dos pastorzinhos de Cova da Iria, esse comportamento fosse justificado pela ignorância científica que reinava na época. Mas o que dizer de aparições e milagres que acontecem nos dias de hoje? Seriam eles reais? Ou existe verdadeiramente uma explicação científica para cada fenômeno sobrenatural que testemunhamos?
 

* O texto em questão faz parte do compêndio "O Fim das Conspirações" e está registrado na Biblioteca Nacional. Qualquer trecho pode ser replicado à vontade, desde que citada sua fonte.